Papa no Ângelus: Deus perdoa sempre, somos nós que nos cansamos de pedir perdão a Ele


Papa Francisco no Ângelus de 27/03/2022 (Imagem: Vatican News - Facebook)
Papa Francisco no Ângelus de 27/03/2022 (Imagem: Vatican News - Facebook)

O Pontífice nos alerta sobre o risco de vivermos uma religião de deveres e proibições, sem se lembrar da ternura e misericórdia de Deus

[Rodrigo Camara, 27/03/2022, Redação CatolicaWeb] Com base na parábola do Filho Pródigo que compõe a liturgia do dia, Papa Francisco dirigiu a palavra aos fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro, representando fisicamente toda a Igreja. A misericórdia e ternura de um Pai incansável em nos perdoar formaram a tônica do discurso, que também contou com um alerta sobre o risco de reproduzir a rigidez daquele filho mais velho.

O filho que retorna – Nós

A Parábola do Filho Pródigo “nos leva ao coração de Deus, que perdoa sempre com compaixão e ternura. Deus perdoa sempre, somos nós que nos cansamos de pedir perdão a Ele”:

Deus é Pai, que não só acolhe novamente, mas se alegra e celebra seu filho, que voltou para casa depois de ter desperdiçado todos os seus bens. Nós somos esse filho, e é comovente pensar no quanto o Pai sempre nos ama e nos espera”.

O Filho mais velho que se indigna com o Pai – Um alerta

“Na parábola há também o filho mais velho, que entra em crise diante desse Pai. E isso pode nos colocar em crise também. De fato, dentro de nós há também esse filho e, pelo menos em parte, somos tentados a dar-lhe razão: ele sempre cumpriu seu dever, não saiu de casa, por isso se indigna ao ver o Pai abraçar novamente o irmão que tinha se comportado mal. Ele protesta e diz: ‘Há tantos anos que te sirvo e nunca desobedeci às tuas ordens’, mas para ‘este teu filho’ você faz festa! Não te entendo. Esta é a indignação do filho mais velho.

Em seu relacionamento com o Pai, ele baseia tudo na pura observância dos comandos, no sentido do dever. Este também pode ser o nosso problema, o nosso problema conosco e com Deus: perder de vista o fato de que Ele é Pai e viver uma religião distante, formada de proibições e deveres. E a consequência desta distância é a rigidez em relação ao próximo, que não é visto mais como um irmão. Na parábola, de fato, o filho mais velho não diz ao Pai meu irmão, mas seu filho, como se dissesse: não é meu irmão. E no final é ele quem corre o risco de ser deixado fora de casa. Na verdade, diz o texto, ‘ele não queria entrar’ por causa do outro‘.

Então, o Pai suplica: ‘Filho, você está sempre comigo e tudo o que é meu é seu'”. “Ele tenta fazê-lo entender que para ele cada filho é toda a sua vida. Os pais sabem disso bem, pois se aproximam muito do sentimento de Deus. É bonito o que diz um pai num romance: ‘Quando me tornei pai, entendi Deus’, concluiu o Pontífice.

Festejar e se alegrar – as duas necessidades do pai

“Era preciso festejar e nos alegrar, porque ‘esse seu irmão estava morto, e tornou a viver’. Vejamos se também nós temos em nossos corações as duas necessidades do Pai: festejar e se alegrar“:

Festejar

Primeiramente, festejar, ou seja, mostrar nossa proximidade a quem se arrepende ou está a caminho, a quem está em crise ou está distante. Por que é preciso fazer assim? Porque isto ajudará a superar o medo e o desânimo que podem surgir da lembrança dos próprios pecados. Quem errou, muitas vezes se sente repreendido por seu próprio coração; distância, indiferença e palavras duras não ajudam. Portanto, segundo o Pai, é necessário oferecer-lhe um acolhimento caloroso que o encoraje a seguir em frente. Nós fazemos isso? Procuramos quem está distante, desejamos fazer festa com ele? Quanto bem pode ser feito por um coração aberto, uma escuta verdadeira, um sorriso transparente; fazer festa, não fazer sentir desconfortável! O pai poderia ter dito: tudo bem filho, volta para casa, volta a trabalhar, vá para o seu quarto, acalme-se e comece a trabalhar e isso teria sido um perdão bom. Mas não! Deus não pode perdoar sem festejar! E o pai festeja. Sente a alegria pelo seu filho que voltou.

Se alegrar

“Quem tem o coração sintonizado com Deus se alegra ao ver o arrependimento de uma pessoa, por mais graves que tenham sido seus erros. Não se mantém firme nos erros, não aponta o dedo para o mal, mas se alegra com o bem, porque o bem do outro também é o meu!” “E nós, sabemos ver os outros assim? Sabemos nos alegrar pelos outros?”

Para concluir, uma história inventada

Concluindo a mensagem deste domingo, o Papa conta uma história inventada, baseada na parábola do filho pródigo: “Um jovem que queria voltar para casa, mas tinha medo que o pai o rejeitasse, que não o perdoasse. Então, um amigo o aconselhou a escrever uma carta a seu pai, dizendo que sentia muito e que gostaria de voltar, mas não tinha certeza se o pai ficaria feliz. Portanto, se o pai quisesse recebê-lo, deveria colocar um lenço branco na janela. “Ele se colocou a caminho e quando estava perto da casa, quando o caminho fez uma curva, ele se encontrou diante de casa. E o que ele viu? Não um lenço, mas vários lenços brancos nas janelas, em tudo! Assim, o Pai nos recebe com plenitude, com alegria. Este é o nosso Pai”.

Peçamos à Virgem Maria que “nos ensine a acolher a misericórdia de Deus, para que se torne a luz na qual olhar o nosso próximo”.


Dois anos após pedir pelo fim da Pandemia, o apelo pela paz

Há exatos dois anos, o Pontífice realizava o Statio Orbis, ocasião em que, sozinho, atravessou a Praça São Pedro plenamente deserta e sob a chuva da tarde para pedir à Nossa Senhora o fim da pandemia do Coronavirus. O vídeo foi reproduzido hoje no telão da colunata de Bernini da mesma Praça, que, embora em situação mais amena em relação à maior Pandemia mundial deste século, é local de apelo do Papa sobre outro tema que causa similar dor e tensão no mundo: a Guerra entre Rússia e Ucrânia.

“A guerra não destrói apenas o presente, mas também o futuro de uma sociedade. Li que, desde o início da agressão da Ucrânia, uma criança em cada duas deixou o país. Isso destrói o futuro, provoca traumas dramáticos para os mais jovens e os mais inocentes de nós. Essa é a bestialidade da guerra. Um ato bárbaro de sacrilégio”.

O Papa concluiu com uma prece direta aos líderes: “Rezo para que cada um dos líderes políticos pense nisso, se comprometa e entenda, ao ver a Ucrânia martirizada, como cada dia de guerra piora a situação para todos. É por isso que reitero meu apelo: chega”.

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