Quarta-feira de cinzas com o Papa Francisco


Quarta-feira de Cinzas com Papa Francisco (imagem: Vatican News)
Quarta-feira de Cinzas com Papa Francisco (imagem: Vatican News)

“Convertei-vos a mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus”

O Santo padre ressaltou que uma viagem desse tipo não é nada fácil, uma vez que lutamos contra nossos vícios

[Eduardo Honorato Paulo, Redação CatolicaWeb – 18/02/2021] Na última quarta-feira 17 fevereiro, o Papa Francisco presidiu o rito de imposição das cinzas na Basílica de São Pedro.

Em sua homilia Francisco nos ensinou que a Quaresma é uma viagem de volta, um retorno ao Pai, que envolve todo o nosso ser. Uma viagem como a viagem do Êxodo, onde deixamos as trevas do pecado e rumamos de volta a essência de todo cristão: a santidade.

O Santo padre ressaltou que uma viagem desse tipo não é nada fácil, uma vez que lutamos contra nossos vícios, nosso conforto onde muitas vezes o pecado nos acomodou, assim como os Hebreus caminharam no deserto enfrentando todo tipo de provações e tentações:

“Convertei-vos a mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus que lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas agora é tempo de regressar a Deus. A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos percorrendo, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende. A Quaresma não é compor um ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Tentemos saber: Para onde me leva o ‘navegador’ da minha vida, para Deus ou para mim mesmo? Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido? Tenho um coração ‘dançarino’ que dá um passo para a frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?

“A viagem da Quaresma é um êxodo da escravidão para a liberdade. São quarenta dias que recordam os quarenta anos em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para voltar à terra de origem. Mas, como foi difícil deixar o Egito! Ao longo do caminho, nos seus lamentos, sempre se sentiam tentados pelas cebolas, tentados a voltar para trás, presos às memórias do passado, a qualquer ídolo. O mesmo se passa conosco: a viagem de regresso a Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos doentios, impedida pelos laços sedutores dos vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da ostentação, pela lamúria que paralisa. Para caminhar, é preciso desmascarar estas ilusões”.

O Sumo Pontífice ainda lembrou que, para iniciarmos nossa viagem, devemos ter a mesma coragem do Filho Pródigo de reconhecer que a casa do Pai por mais longe que pareça estar, ainda é o melhor lugar para se viver, e refazer todo o caminho de volta confiantes na misericórdia do Pai:

“Como aquele filho, também nós esquecemos o ar de casa, delapidamos bens preciosos em troca de coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e o coração insatisfeito. Caímos: somos filhos que caem continuamente, somos como criancinhas que tentam andar, mas estatelam-se no chão precisando uma vez e outra de ser levantadas pelo papai. É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso. Recomendo aos confessores: sejam como o pai, não com o chicote, mas com o abraço.”

Francisco completou dizendo que, dentre tantos regressos, também há o regresso a Jesus e ao Espírito Santo, como aquele leproso que depois de curado voltou para agradecer. Afirmou ainda que nossa iniciativa de retornar não é um mérito nosso mas sim uma ação da Graça de Deus, por isso nosso primeiro passo para o regresso é nossa atitude humilde de nos reconhecer necessitados d’Ele:

“Depois precisamos de regressar a Jesus, fazer como aquele leproso curado que voltou para Lhe agradecer. Somos chamados também a regressar ao Espírito Santo. As cinzas na cabeça nos lembram que somos pó e ao pó voltaremos”.

“o que nos faz regressar a Deus não são as nossas capacidades nem os méritos que ostentamos, mas a sua graça que temos de acolher. Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos torna justos não é a justiça que praticamos diante dos homens, mas a relação sincera com o Pai. O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos necessitados d’Ele, necessitados de misericórdia. O caminho certo é este: o caminho da humildade”.

O Papa concluiu a homilia dizendo que abaixamos nossa cabeça para recebermos as cinzas no início de nossa caminhada quaresmal e no final nos abaixaremos para lavar os pés dos nossos irmãos por isso esse é o tempo ideal para voltarmos a nós e nos colocarmos a serviço do próximo. Nos anima ainda a confiar na misericórdia de Deus, e nos colocarmos dentro de suas Santas Chagas que foi aberta por cada um de nós e nelas nós podemos confiar e sermos curados:

“Hoje inclinamos a cabeça para receber as cinzas. Quando terminar a Quaresma, nos abaixaremos ainda mais para lavar os pés dos irmãos. A Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e rumo aos outros. É compreender que a salvação não é uma escalada para a glória, mas um abaixamento por amor. É fazer-nos humildes. Neste caminho, para não perder o rumo, coloquemo-nos diante da cruz de Jesus: é a cátedra silenciosa de Deus. Contemplemos cada dia as suas chagas. “Nas suas chagas reconheçamos o nosso vazio, as nossas faltas, as feridas do pecado, os golpes que nos fizeram sofrer. Vemos ali que Deus não aponta o dedo contra nós, mas nos abre os braços. As suas chagas estão abertas para nós e, por aquelas chagas, fomos curados”. Nas chagas mais dolorosas da vida, “Deus nos espera com a sua infinita misericórdia. Porque ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E agora nos convida a regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a alegria de ser amados”.

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