Papa Francisco no Regina Coeli: “A santidade não se faz de alguns gestos heroicos, mas de muito amor diário.”


“O amor que recebemos do Senhor é a força que transforma a nossa vida: dilata-nos o coração e predispõe-nos a amar”

[Renata Neli, 15/05/2022 – Redação CatolicaWeb] Diante de milhares de fiéis na praça São Pedro, e antes do Regina Coeli, o Pontífice celebrou a Missa deste 5º Domingo da Páscoa canonizando 10 novos Santos, e nos deixou uma mensagem do evangelho de hoje, o verdadeiro testamento, que Jesus deixou aos seus discípulos e todos que querem ser seus discípulos também: o mandamento do amor. Ele chama a atenção para duas coisas: o Amor de Jesus por nós e o amor que Ele nos pede para vivermos.

Assim como Eu vos amei

O Papa nos leva a refletir como foi este Amor de Jesus, pois, no Cenáculo, sabendo tudo que estava perto de acontecer, e a tristeza de saber que um dos seus iria traí-lo, Ele confirma este amor. Jesus se entregou completamente por amor, e, mesmo em meio a tantas trevas, Deus nos Ama. Assim o Papa nos fala deste amor incondicional:

“No centro, não está a nossa capacidade, os nossos méritos, mas o amor incondicional e gratuito de Deus, que não merecemos. No início do nosso ser cristão, não estão as doutrinas e as obras, mas a maravilha de descobrir que se é amado, antes de qualquer resposta nossa. Enquanto o mundo quer muitas vezes convencer-nos de que só temos valor se produzirmos resultados, o Evangelho lembra-nos a verdade da vida: somos amados. E está nisto o nosso valor: somos amados. Ele amou-nos primeiro, esteve à nossa espera. Ama-nos e continua a amar-nos. E esta é a nossa identidade: amados por Deus. Esta é a nossa força: amados por Deus.”

Ele nos diz, ainda, que precisamos converter nossa ideia de santidade. Que este ideal de santidade criado por nós é fundado em heroísmo pessoal, em sacrifícios buscando premiações, e que as vezes colocamos a santidade como algo inacessível:

“Às vezes temos uma visão demasiado pelagiana da vida, da santidade. Deste modo fizemos da santidade uma meta inacessível, separamo-la da vida de todos os dias, em vez de a procurar e abraçar na existência quotidiana, no pó da estrada, nas aflições da vida concreta e – como dizia Teresa de Ávila às suas irmãs – ‘entre as panelas da cozinha’. Ser discípulo de Jesus e caminhar pela via da santidade é, antes de mais nada, deixar-se transfigurar pela força do amor de Deus. Não esqueçamos o primado de Deus sobre o próprio eu, do Espírito sobre a carne, da graça sobre as obras. Às vezes damos mais peso, mais importância ao próprio eu, à carne e às obras. Não está certo, mas há de ser a primazia de Deus sobre o eu, a primazia do Espírito sobre a carne, a primazia da graça sobre as obras.”

Amai-vos também vós uns aos outros

Neste segundo ponto, o Pontífice nos fala que este amor que vem do Senhor é transformador em nossas vidas, nos predispõe a amar.

“O amor que recebemos do Senhor é a força que transforma a nossa vida: dilata-nos o coração e predispõe-nos a amar. Por isso – e passamos ao segundo ponto – Jesus diz ‘assim como Eu vos amei, amai-vos também vós uns aos outros’. Este assim como não é apenas um convite a imitar o amor de Jesus; mas significa que só podemos amar porque Ele nos amou, porque dá aos nossos corações o seu próprio Espírito, o Espírito de santidade, amor que nos cura e transforma. Por isso podemos decidir-nos a praticar gestos de amor em toda a situação e com cada irmão e irmã que encontramos, porque somos amados e temos a força de amar. Assim como sou amado eu, posso amar. Sempre, o amor que partilho está unido ao de Jesus por mim: ‘assim como’. Assim como Ele me amou, assim também eu posso amar. A vida cristã é assim simples, tão simples! Nós tornamo-la mais complicada, com tantas coisas, mas é simples assim.”

O papa nos questiona se sabemos concretamente o significado de viver este amor, pois antes de deixar este novo mandamento, o Senhor serviu, lavando os pés de seus discípulos e depois deu a vida por nós no madeiro da cruz.

“Amar significa isto: servir e dar a vida. Servir, isto é, não colocar os próprios interesses em primeiro lugar; desintoxicar-se dos venenos da ganância e da preeminência; combater o câncer da indiferença e o caruncho da autorreferencialidade, partilhar os carismas e os dons que Deus nos concedeu. Perguntando-nos o que fazemos em concreto pelos outros. Isto é amar: viver as tarefas de cada dia em espírito de serviço, com amor e sem alarde, sem nada reivindicar.”

Ele nos conta que, quando dá conselhos a quem o pede, constuma perguntar se, ao dar emolas, olha nos olhos daquelas pessoas, se toca a mão de quem está recebendo, ou se desvia o olhar e limpa as mãos:

“Tocar e olhar, tocar e olhar a carne de Cristo que sofre nos nossos irmãos e irmãs. Isto é muito importante. Dar a vida é isto. A santidade não se faz de alguns gestos heróicos, mas de muito amor diário. ‘És uma consagrada ou um consagrado [hoje aqui há muitos]? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado [ou casada]? Sê santo [e santa], amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador[, uma mulher trabalhadora]? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos [e lutando pela justiça a favor dos teus companheiros, para que não fiquem sem trabalho, para que tenham sempre o salário justo]. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. [Diz-me:] estás investido em autoridade? [Aqui temos muitas pessoas que têm autoridade – pergunto-vos: estás investido em autoridade?] Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais’ (cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 14). Esta é a estrada da santidade: ver sempre Jesus nos outros.

O nosso Pontífice conclui nos convidando a servir o evangelho e aos irmãos, como o exemplo dos santos canonizados hoje:

“Servir o Evangelho e os irmãos, oferecer a própria vida sem retribuição – fazê-lo em segredo: oferecer sem esperar retribuição –, sem buscar qualquer glória mundana, mas escondido humildemente como Jesus: a isto somos chamados também nós. Os nossos companheiros de viagem, hoje canonizados, viveram assim a santidade: abraçando com entusiasmo a sua vocação – uns de sacerdote, outras de consagrada, e outros ainda de leigo –, gastaram-se pelo Evangelho, descobriram uma alegria sem par e tornaram-se reflexos luminosos do Senhor na história. Um santo ou uma santa é isto: um reflexo luminoso do Senhor na história. Tentemos fazê-lo também nós: não está fechado o caminho da santidade, é universal, é uma chamada para todos nós, começa com o Batismo, não está fechado o caminho. Tentemos também nós, porque cada um de nós é chamado à santidade, a uma santidade única e irrepetível. A santidade é sempre original, como dizia o Beato Carlos Acutis: não há santidade de fotocópia, a santidade é original, é a minha, a tua, a de cada um de nós. É única e irrepetível. Sim, o Senhor tem um plano de amor para cada um, tem um sonho para a tua vida, para a minha vida, para a vida de cada um de nós. E que posso dizer-vos eu? Continue com alegria. Obrigado.”

Após a oração do Regina Coeli

Encerrando a Celebração, o pontífice saúda a todos ali presentes: fieis, o clero, as famílias espirituais dos novos Santos e as delegações oficiais, e nos fala do testemunho evangélico dos santos.

“É bonito constatar que, com seu testemunho evangélico, esses santos promoveram o crescimento espiritual e social de suas respectivas nações e de toda a família humana. Enquanto tristemente crescem as distâncias no mundo e aumentam as tensões e as guerras, os novos santos inspiram soluções de conjunto, caminhos de diálogo, especialmente no coração e na mente daqueles que ocupam cargos de grande responsabilidade e são chamados a ser protagonistas da paz e não de guerra.”

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