Episódio 6: A oração comum e sua viagem rumo ao coração de Deus

Rezar é, sem dúvida, o ato mais comum que alguém pode efetuar quando se possui algum grau de fé. Por ser tão simples, tende a ser vulgar, no sentido de ser automatizado por nós, quando apenas emitimos sons ou pensamentos sob a forma de oração.

Para se caracterizar oração de fato, existe um ponto de partida e um ponto de chegada diferente do primeiro. O ponto de partida é sempre claro, pois parte de nós mesmos, o ponto de chegada é o que, geralmente, causa uma pequena confusão para alguns.

O ponto de chegada é sempre Deus.

Temos aqui então um caminho que se constitui de dois pontos distintos: eu e Deus. Todo caminho possui esta característica de origem-destino, mas não basta existir estes dois pontos para ter um caminho, é necessário ainda ter um percurso, isto é, algo que una estes dois pontos.

Se quiser, faça dois pontos diferentes num papel e veja que é possível unir estes dois pontos de maneira livre. Podemos desenhar uma linha reta, um traçado cheio de curvas ou um caminho que percorra todo o papel.

Deste modo, não importa o caminho que escolhemos, desde que tenhamos estabelecido qual é a origem e qual é a chegada, esperamos concluir nosso trajeto.

Como já havia adiantado, a origem somos nós e a chegada é Deus. Então nossa oração é algo que partiu do nosso interior e expressamos de alguma maneira com a finalidade de chegar a Deus e, uma vez executada, esta oração certamente chega ao seu destino.

O ponto que gera a tal confusão que havia dito é exatamente este caminho que nossa oração faz até chegar a Deus. Muitos dirão que não é preciso nenhuma intermediação entre origem e destino, isto é, a oração é dita por nós diretamente a Deus, é uma conversa pessoal com Deus.

Contudo, também é bem comum vermos pessoas pedindo oração e, ao rezar por esta pessoa, estamos fazendo uma mediação e nos unindo a esta pessoa para pedir uma determinada graça. Aqui temos uma pessoa ou mais se unindo para dirigir uma prece a Deus.

No nosso exemplo de caminhos, uma pessoa que pede oração está, além de rezando, fazendo um “percurso mais longo”, pois, ao pedir oração para nós, ela nos diz a situação a qual está precisando da ação de Deus e nos solicita esta intercessão para que esta oração chegue até Deus com uma “intensidade” maior.

Repare que não muda a essência da oração, existe um ponto de partida e um ponto de chegada, mas tem uma breve “parada” no trajeto onde foi solicitado o auxílio e, antes o trajeto que era “solitário”, passa a ter uma “companhia”.

Uma oração pode ter muitas “paradas” e várias “companhias”.

E é algo bem natural isto, pois pedimos oração para muitas pessoas e é claro que isso não “atrasa o envio” da oração uma vez que nos dirigimos a Deus em nosso particular a oração já foi enviada e recebida por Deus, mas é como se estivéssemos enviando novamente a oração com mais emissários, além de nós mesmos.

Podemos dizer que temos nossa oração direta entre eu e Deus e temos a oração composta por mais pessoas, por exemplo, eu, minha mãe, meus amigos e tantas outras pessoas que se dispõe a rezar pela nossa intenção com o objetivo de pedir o auxílio divino.

E quem mais pode nos ajudar nesse processo de envio de orações a Deus? Temos a Virgem Maria, os Santos, os anjos e todos aqueles que foram salvos e estão no Céu. Assim, nossa oração possui “paradas” aqui na Terra e também tem “paradas” lá no Céu, pois a Virgem Maria, os Santos, os anjos e todos os que estão no Céu dirigem nossas orações a Deus, se nós solicitarmos a eles.

Novamente, não mudou a essência da oração. É sempre saindo do nosso íntimo e chegando ao Coração de Deus, mas pode ser que tenhamos outras pessoas dirigindo a mesma intenção ao Senhor e pode ser que algumas destas pessoas já estejam diante Dele. Nós temos, então, uma união, uma corrente de oração sobre determinado pedido.

É uma comum união de pessoas, mais conhecida como Comunhão dos Santos.

Comunhão que é a própria Igreja composta de seus membros no Céu e seus membros aqui na Terra e, por isso, a Igreja é Santa e pecadora. Também reforço que, da mesma maneira que ao pedir oração a alguém aqui na Terra, é necessário este pedido de oração aos que estão no Céu e nós podemos (e devemos SIM!) pedir a intercessão dos que já estão diante de Deus.

Alguém poderia questionar o seguinte: pedir oração para quem já morreu não é “perigoso”? Como posso saber se estão diante de Deus mesmo?

Vale lembrar a seguinte passagem do evangelho:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agri­cul­tor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e será queimado. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisso é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros. Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir. Se guardaram a minha palavra, hão de guardar também a vossa. Mas vos farão tudo isso por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou. Se eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado; mas agora não há desculpa para o seu pecado. Aquele que me odeia odeia também a meu Pai. Se eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado; mas agora as viram e odiaram a mim e a meu Pai. Mas foi para que se cumpra a palavra que está escrita na sua Lei: Odiaram-me sem motivo (Sl 34,19; 68,5). Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. Também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio.” (João 15)

Todo bem provém do Senhor!

Se todo bem provém da Videira Verdadeira, isto é, se o fruto é verdadeiramente bom, nós sabemos de onde ele vem, então a intercessão dos que permaneceram e dos que estão lutando diariamente para permanecer na Videira Verdadeira, só pode gerar bons frutos. O próprio Senhor nos escolheu do mundo para produzir tais boas obras e, portanto, toda e qualquer Graça alcançada vem do Único que pode realizá-la: somente Deus Pai, pelo nome de Jesus, nos concede um auxílio, pois este pedido nos foi antes inspirado pelo Espírito Santo!

Não devemos dar crédito a quem pensa que o mal pode fazer o bem por si mesmo. Já vimos isso antes também no evangelho:

Apresentaram-lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus o curou de tal modo, que este falava e via. A multidão, admirada, dizia: “Não será este o filho de Davi?”. Mas, ouvindo isso, os fariseus responderam: “É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa”. Jesus, porém, pene­trando nos seus pensamentos, disse: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino? E se eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. Como pode alguém penetrar na casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem ter primeiro amarrado este homem forte? Só então pode roubar sua casa. Quem não está comigo está contra mim; e quem não ajunta comigo, espalha. Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoa­da. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro. Ou dizeis que a árvore é boa e seu fruto bom, ou dizeis que é má e seu fruto, mau; porque é pelo fruto que se conhece a árvore. Raça de víboras, maus como sois, como podeis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda do coração. O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro. Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado.” (Mateus 12, 22 – 37)

Se o Bom Mestre nos ensinou que conhecemos a árvore pelo fruto que é gerado e que todo bem provém Dele mesmo e que o mal não pode produzir bem algum por si mesmo, então podemos confiantemente pedir a intercessão de todos aqueles que estão diante Dele no Céu e, aqui na Terra, se não cuidarmos para permanecer ligados à Videira Verdadeira, nós saberemos qual será nosso fim e seremos julgados pela nossa própria conduta.

Que eu consiga permanecer na Videira Verdadeira. Que meus frutos não sejam motivo de condenação. Que o bem que vem do Senhor passe por mim e chegue a outras pessoas. Que minhas preces pessoais e comunitárias sejam sinceras e produzam os frutos que o Senhor deseja. Que eu tenha a certeza que todos os homens e mulheres de boa vontade que estão no céu e na terra formam um só coração vivo que bate desejando a Seiva, isto é, o próprio Espírito Santo Paráclito que vem da Videira Verdadeira. Que eu não me deixe levar pela divisão que o mau quer gerar em nossas vidas.

De um católico qualquer,
Gabriel Bondioli Piterutti


A foto que escolhi: Uma pequena luz pode romper uma densa escuridão, que nossas orações tragam a Luz que nossas vidas necessitam.
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