Episódio 11: O desafio de ser constante tendo contradições dentro de si.

Temos uma necessidade de observar e experienciar coisas em nossas vidas e acredito que seja uma prática comum do ser humano. O modo com que o homem encara a natureza é um bom exemplo disso.

Observar um fenômeno e tentar descrevê-lo é uma tarefa quase que primitiva e contemporânea ao mesmo tempo. Primitiva, pois desde sempre o homem observa e experiência a natureza para retirar dela sua subsistência e contemporânea, pois até hoje o homem procede desta maneira, mas com seus devidos avanços tecnológicos, científicos e filosóficos.

Em algum ponto da história evolutiva do homem, o instinto foi dando lugar à razão e assim o saber do homem tornou-se vantagem na adaptação da espécie e determinante para sua afirmação neste mundo.

Existe muito a ser entendido na história do homem e ainda há muitas lacunas nessa linha do tempo, mas sem dúvida alguma existe um fator de julgamento sobre as nossas ações humanas que caracterizam nosso modo de vida, nós somos capazes de escolher o que é bom e o que é ruim.

Subjetivo o bastante o significado da expressão “o que é bom e o que é ruim” e ambíguo demais para a mente que se baseia em lógica e normas. Entretanto, devemos ter clareza de que o que é tido como “bom”, em geral, é o que não coloca em risco a dignidade humana e o que é “ruim” o oposto disto.

Então “bem” e “mal” se opõe de maneira semelhante uma vez que o “bem” promove a vida e o “mal” a morte.

Complexidade filosóficas e linguísticas a parte, nossa vida comum é permeada por estas duas ações que são ambas enraizadas no coração humano. O “bem” é próprio pulso da Vida batendo em nossos corações e o “mal” a nossa inclinação ao desejo corruptivo. Duas vertentes que se atacam diariamente, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, instante a instante em nossa mente e coração alimentadas pelas nossas paixões e sensações, pela nossa lógica e razão.

A nossa cabeça possui um hospício ou um campo de batalha, onde a sanidade e a loucura são como dois guerreiros iguais lutando até a morte para defender seus ideais.

E a Fé? Bom, a Fé solitariamente observa estes guerreiros e aguarda uma decisão racional vinda do nosso coração em optar entre um guerreiro e o outro.

Decisão que não é sempre definitiva, pois o tempo testa até o último suspiro do homem esta firmeza na decisão tomada. O tempo, instante a instante, pergunta para nossa Fé qual guerreiro ela escolhe ajudar.

É, absolutamente, insano responder, instante a instante, esta pergunta.

Por vezes dizemos que estamos ao lado do guerreiro do “bem” e em outras do lado do guerreiro do “mal”. Supondo que temos todos os instantes em uma fila e que escolhemos “B” para estar a favor do guerreiro do “bem” e “M” para estar do lado do guerreiro do “mal”, vamos ter uma sequência composta de infinitos instantes em uma alternância não-periódica entre letras “B” e “M”, por exemplo, a sequência:

“B”, “M”, “M”, “M”, “B”, “B”…

Para cada instante eu posso escolher entre “B” e “M” e isso gera uma sequência que possui duas possibilidades para cada um dos instantes. Supondo que temos 5 instantes, vamos ter 2 vezes 2 vezes 2 vezes 2 vezes 2 resultando 32 possibilidades de sequências.

Se tomarmos 10 instantes, teremos 1024 possibilidades de sequências.

Quantos instantes sua vida possui?

Com certeza é uma quantidade infinita, porém enumerável e se subdividirmos nosso tempo de vida pelo menor tempo possível (a saber o menor tempo possível é Tempo de Planck que é aproximadamente 5,4 x 10^-44 segundos. Referencia: https://www3.unicentro.br/petfisica/2021/03/18/constantes-fisica-e-a-escala-de-planck/) teremos o menor intervalo possível entre um instante e outro de nossas vidas.

Se vivemos em média 85 anos, temos 2 682 396 000 segundos e tomando nosso tempo médio de vida e dividirmos pelo Tempo de Planck, nós vamos ter 4,9674 x 10^52 instantes e cada um deles com duas possibilidades de escolha entre “B” e “M”, ou seja, temos 2 elevado a 4,9674 x 10^52 possibilidades de sequências.

Claro que a ínfima fração de segundo que o Tempo de Planck representa é imperceptível para nossa consciência, é apenas um exercício de imaginação e este número estupidamente absurdo é um número finito apesar de ridiculamente grande. E se pudéssemos tomar uma decisão em cada um destes infinitésimos de segundo a nossa sequência alternada e não periódica nos leva a dizer que não somos “bons” todo o tempo ou “maus” todo o tempo de nossas vidas.

Deste modo, nós devemos absorver o que é “bom” e descartar o que é “mau”, se Deus levar em conta o nosso “mau”, a Salvação é impossível a nós. Para nossa “sorte”, Deus despreza o “mau” que habita em nós e nos pede que sejamos “bons” como Ele é Bom, pois Ele é todo tempo Bom de maneira infinita e não-enumerável.

“A respeito da época e do momento, não há necessidade, irmãos, de que vos escrevamos. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como um ladrão de noite. Quando os homens disserem: “Paz e segurança!”, então repentinamente lhes sobrevirá a destruição, como as dores à mulher grávida. E não escaparão. Mas vós, irmãos, não estais em trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas. Não dur­mamos, pois, como os demais. Mas vigiemos e sejamos sóbrios. Porque os que dormem, dormem de noite; e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, ao contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios. Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação. Porquanto não nos destinou Deus para a ira, mas para alcançar a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo. Ele morreu por nós, a fim de que nós, quer em estado de vigília, quer de sono, vivamos em união com ele. Assim, pois, consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros, como já o fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a paz entre vós. Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos. Vede que ninguém pague a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos. Vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo. Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo: abraçai o que é bom. Guardai-vos de toda a espécie de mal. O Deus da paz vos conceda santidade perfeita. Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo! Fiel é aquele que vos chama, e o cumprirá.” (I Tessalonicenses 5, 1 – 24)

Deus não depende do tempo e não precisa reafirmar sua decisão em Ser Bom, pois uma vez dito, é dito eternamente, pois Ele é Fiel e cumpre com Sua Palavra.

Deus é constante, enquanto eu sou esta alternância entre “bom” e “mau” ao longo dos instantes da vida e, assim como foi dito por São Paulo, devo decidir abraçar o que é Bom com a finalidade de livremente promover as virtudes e bens que provém desta decisão instante a instante.

Que nos meus instantes eu opte pelo que é Bom e possa desprezar o que mau. Que, mesmo que tenha me decidido pelo mau em outros instantes, eu possa, a partir deste instante, me decidir pelo Bem e ser Bom como Ele é Bom. Que nos momento mais difíceis eu possa encorajar e amparar as pessoas de modo que elas se decidam também a fazer o Bem e encorajar e amparar outros os quais não posso alcançar. Que eu seja fiel nos instantes da minha vida. Que um dia eu possa ser constante no Bem, assim como Deus é constantemente Bom.

De um católico qualquer,
Gabriel Bondioli Piterutti


A foto que escolhi: O tempo é a chave que difere a criatura do Criador.
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